Tem uma prática que eu estou desacostumado: acordar cedo. Ainda mais para quem foi dormir às 3h precisando levantar às 7h, e isso só aconteceu unicamente porque a internet daqui estava extremamente lenta e dando problemas, o que dificultou e atrasou (muito) uma simples operação de enviar e receber e-mails (sem anexo, e curtos, apenas texto).
No ponto de encontro, uma esquina onde havia uma estação de metrô, começaram a chegar algumas pessoas, com cara de perdidas, com voucher na mão olhando para os lados com muita suspeita. E com razão: o ponto de encontro era apenas aquela esquina, não havia placa da agência, ou alguém com uniforme, apenas uma esquina.
Pontualmente surgiu uma menina do metrô segurando a placa com o nome da agência, todos se aglomeraram nela ao ponto de ela ficar um pouquinho descontrolada: todos estenderam os vouchers e os €20 que eram precisos para pagar a entrada no Museu do Vaticano, até que ela disse just calm down people, i’m here to help u, one by one please com um certo ar de cacete, deixa eu me organizar aqui, pois todo mundo enfiando dinheiro e papel na minha prancheta mais atrapalha do que ajuda.
Depois chegou uma outra mulher, que descobrimos ser a nossa guia, e depois um homem (com camisa pólo violeta – mas um belo de um carro) com os walk-talkies e fone de ouvido (para a guia não precisar berrar no meio do museu).
Fomos a pé pois era perto, não pegamos a fila que dobrava o quarteirão, passamos pelo detector de metais (igual em aeroporto), nos dividimos em grupos (haviam mais de uma guia) e então seguimos para conhecer tudo lá dentro.
Um grande resumo: é tudo muito bonito, muito detalhado, cada ornamento é cuidado e restaurado. Cada pedaço do teto e da parede são verdadeiras obras de arte, e isso me cansou depois de passar pela décima sala com afresco até no rodapé (em minha ignorante mente para história e cultura, eu ansiava por ver uma parede branca).
Muitas salas haviam obras em afresco no teto e nas paredes, algumas até com ilusão de ótica: você pode fixar seus olhos e achar que tudo foi esculpido, mas na verdade as sombras e as luzes foram desenhadas, e você se sente um bobo. Eu não me senti, afinal, desde aquela época os artistas já dominavam a obsoleta e discriminada técnica do bevel and emboss (piada de Photoshop – este, quando traduzido, se transforma em chanfro e entalhe).
Cada sala que estávamos perto da saída havia uma placa escrito Capela Sistina e a seta indicando a direção, e ao seguir a seta você entrava em outra sala, e aí sim eu comecei a me sentir bobo. Creio que muitos, pois andamos bastante dentro do museu, onde existem mais pinturas do que esculturas.
A guia nos avisou que era estritamente proibido tirar fotos e filmar dentro da Capela Sistina, assim como falar ou fazer qualquer barulho (celular, música etc.), e ao chegar na porta de entrada avistei as placas com esses avisos e dava para ouvir os guardas falando, constantemente, silenzio, no fotos, no filme, e o ensurdecedor shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Muitas pessoas ignoravam esse aviso, e procuravam o melhor ângulo para tirar uma foto que fosse fora do campo de visão dos seguranças, o que era um tanto difícil, uma vez que eles possuem uma rotina de dar uma volta entre as pessoas antes de assumirem suas posições novamente.
Reparei que o segurança pediu silêncio para alguma(s) pessoa(s) e, em um gesto que mostrava a razão de seu pedido, ele apontou para a cruz, com a estátua de Jesus Cristo, que poderia ser interpretado como estamos em um local santo, por favor respeite.
Eu consegui tirar uma foto com o iPhone, guardei-o rapidamente e fiquei admirando. Realmente aquilo foi complicado de se fazer, e a perfeição alcançada é de tirar o fôlego por uns minutos, ou te prender por uns instantes olhando para cima e para os lados. Teve uma hora que eu confundi a pintura de cortinas com cortinas de verdade. Isso é possível.
O guarda passou na minha frente mas nem desconfiou. Logo vi ele chamando atenção de dois moleques, dizendo que era a última vez que avisaria ou eles seriam expulsos do local. Apesar dos avisos dos guardas e de um aviso sonoro (a mesma mensagem repetida em umas cinco ou seis línguas) as pessoas ainda arriscavam tirar foto no local, o que em parte eu sou a favor.
Uma obra de arte como a Capela Sistina, com a história que ela tem (ela, a obra de arte – como foi feita, a técnica, as conseqüências etc.), deveria ser liberada para que as pessoas pudessem tirar suas fotos. Ninguém vai vender elas, ficarão guardadas em suas casas, quase todos no local eram adultos e idosos que queriam mostrar as fotos de sua viagem para alguém da família, e não criar uma conspiração de banco de imagens do Vaticano.
A proibição de flash está correta, pois dependendo do restauro e da etapa em que se encontra, a luz do flash pode com certeza alterar a tinta aplicada nas pinturas e dificultar o trabalho dos profissionais que se empenham em manter tudo aquilo preservado. Mas proibir fotos soou totalmente comercial.
Tem uma parte da Capela que tem uma grade de ponta a ponta, com uma porta de grade aberta, que não serve para muita coisa para eles, mas para os turistas, servia para facilitar as fotografias longe da segurança, já que eles não iam até lá e esse local era ao fundo da Capela. Nessa hora eu consegui usar a máquina e tirar mais fotos.
Saí de lá e, como de costume, me perdi do grupo, e o meu consolo para que eu não me considere tão burro é que a guia disse que isso é normal pois são milhares de grupos que vão te levando em um fluxo só, e qualquer piscada te faz perder. Logo após a Capela Sistina havia a Basílica de São Pedro, que me lembrou a Duomo di Milano pela complexidade dos ornamentos internos, tudo feito minunciosamente, e cada detalhe desse ocupando um lugar imenso.
Confesso que até deu um pouco de tontura ver tantos detalhes e ornamentos em um mesmo campo de visão: muita madeira, mármore, ouro, bronze, ferro, luz, vidro, pedras e outros materiais.
A saída da Basílica fica na praça do Vaticano, que é imensa e, até onde eu conheço (pouco) é onde ficam as pessoas quando há a escolha do novo Papa. A praça é famosa, já apareceu em diversos filmes, um mais recente é Anjos e Demônios, e eu tenho boas fotos dela.
E o calor era acima de 30º, enquanto eu estava de camiseta, tênis e calça (pois eles são exigentes com a roupa – dependendo do que você estiver usando eles te barram a entrada), o que foi um dos agentes para me causar a famosa assadura de tanto andar (mais de sete horas andando, no sol).
Como havia me perdido do grupo, resolvi tomar meu caminho como planejado: cheguei ao Coliseu de táxi e foi aquela sensação de então este é o Coliseu que eu somente via em fotos. O bicho é grande e bonito arqueologicamente (obviamente por estar em ruínas), arranjei uma excursão de última hora (também com guia falando em inglês) e visitei o interior do Coliseu, onde tirei muitas fotos (uma boa parte repetidas).
Para conhecer o Foro Romano e a Palantina precisava, também, pagar o ingresso. A essa hora eu estava enxarcado, cansado, com sono, com fome e com sede (o dia inteiro foi pão com queijo, um refrigerante, um suco de laranja natural e meio pedaço – final – daquele doce que comprei ontem, eu basicamente tomei apenas um café da manhã, sem almoço). Tirei algumas fotos externas, e com grande orgulho desisti de pagar para visitar esses locais, quem sabe outra hora, de banho tomado, seco, e bem alimentado (e provavelmente em um horário que tenha mais brisa do que sol) eu volte, pague e conheça com mais afinco.
E sem guias, descobri que excursões artísticas te fazem doer as pernas, pois cada detalhe o guia quer comentar um fato histórico, e tudo tem ligação com um monte de eventos, geralmente políticos e religiosos, e você se percebe olhando por 15 minutos um pedaço de pilastra.
Logo ao lado, também, havia o Arco di Constantino (aprendi que ele era inglês), que foi simples e objetivo: parar, tirar foto e continuar andando.
Voltei para o hotel, novamente de taxi (apesar de ter andado um bom pedaço e ter comprado – finalmente – soro e case para lentes de contato) e achei que fosse sair caro pois estava demorando um pouco para chegar aqui no hotel, mas deu €7 (um preço barato, comparando com outros dias).
Tomei um banho, já taquei a roupa suja na sacola de roupas sujas, mas como eu lavei todas as minhas roupas, as de hoje estrearam a função suja dessa sacola. Preciso voltar no Hard Rock Café para trocar a camiseta, talvez comprar mais uma, mas não pretendo jantar por lá, pois pelo que lembro tem um restaurante italiano do lado e eu estou com vontade de comer uma boa massa. Apesar de ontem eu ter fixado mentalmente que hoje eu iria apenas passar o dia com líquidos (água, suco e refrigerante – em doses balanceadas), depois de andar por mais de seis horas eu creio que mereça essa janta.
Quanto ao Hard Rock, dependendo da hora, pode ser apenas uma sobremesa, apesar de que não deve ter nada interessante o suficiente para que eu fique por lá apenas para isso.
Informação desnecessária: escrevendo de cueca e chinelo com o ar-condicionado no talo, o que significa que estou com frio na Itália, e isto é um paradoxo.
Fui jantar, e eu juro que eu tentei comer macarrão, mas acabei seduzido pelo hambúrguer e o ambiente do Hard Rock Café, novamente. Pedi o mesmo que ontem, e ainda comprei mais algumas coisas na loja (surpresa).
Antes de receber meu pedido, me ligaram da agência confirmando que meus planos deram certo: minha volta ao Brasil será antecipada para o dia 5/6 de setembro, o que significa que faltam quatro dias apenas para ir embora. Eu chutei Palermo fora (não tinha nada planejado oficialmente) e não estraguei meus planos em Nápoles (como a excursão programada – me esforçarei para não me perder nesta última).
O taxista que me trouxe para o hotel agora à noite tem uma namorada brasileira, que mora há dois anos em Roma. Conversamos sobre as semelhanças entre português e italiano, mas essa prosa não adiantou nada para amenizar o abusivo preço de €20 (ontem paguei €7 com outro taxista).
Pernas assadas, creio que esta noite dormirei como uma boa pedra.









