Arquivo de 25 março, 2011

25mar (Lisboa)

Acordei mais cedo de quando estou em São Paulo. Agora pense que estou num fuso-horário de 3 horas adicionais. Eu levantei 7h30, o que significa que esta notícia para minha família significaria que eu acordei às 4h30! Caraças! Imaginem se eu estivesse na Austrália? Eu estaria fazendo as coisas no dia seguinte, e mandando recados para minha família no passado.

Chega de piração com tempo.

Um compromisso profissional pela manhã, e logo após surge outro, tipo Kinder Ovo: tá-dá! Pronto, mais um compromisso, longe, bem longe, mas como em Portugal tudo é perto, o longe daqui significa a mesma distância de São Paulo até Alphaville – ainda mais a bordo de uma BMW coupe batendo 140 ou 160Km.

Mãe, pai, não era eu na direção, e eu continuo vivo. Vejam, estou teclando!

Após tudo isso, volto para o hotel, vejo alguns e-mails, falo com o pessoal na agência, e penso que já precisaria ir ao terceiro compromisso marcado (também, em cima da hora), então fico no quarto até dar a hora de sair, e me vou. O problema: desinformação – fui para um lugar, era para ir até outro, não achei quem precisava, voltei para o hotel, e tudo isso ao custo de 18 euros de taxi, que significam mais de R$ 40,00. Ouch.

De volta ao hotel, mais computador, e-mails, recados etc. e eu começo a pensar que eu deveria me presentear com, finalmente, o tão aguardado jantar português – os portugueses que lerem este post, peço desculpas caso eu soe clichê, mas eu não conheço quase nada (ou nada) da cultura gastronômica de Portugal: bacalhau assado com batatas aos murros.

Decidi ir a pé, para me exercitar, aproveitar o clima de frio (18 graus – apesar de que isso não significa muita coisa para mim, ser humano com biotipo próximo ao de um esquimó) e, principalmente, economizar, pois não quero encerrar o período aqui no bico do corvo.

Cheguei ao restaurante, e já perguntaram se eu queria vinho, colocaram os pães e as azeitonas na minha frente, e o azeite também. Tive que escolher um vinho, e quem me conhece sabe que eu não entendo nada: escolhi o vinho de produção própria, pois se eu parecer um ridículo experimentando, pelo menos agradarei à casa provando algo genuíno deles.

Uma taça e basta.

Quando estava na mesa, um senhor ao meu lado começou a reclamar com o garçom, mas em tom brando, como se estivesse preocupado, ansioso, e vi que era comigo o problema. Fingi não ouvir nada, até porque eu realmente não tinha ouvido o que aquele homem estava falando. Ele calou-se, e logo tornou a falar novamente com o garçom, até este vir até a mim e perguntar se tudo bem eu mudar de mesa, para uma na parede, mais reservada.

Concordei, e percebi que aquele senhor havia pedido isto e pensei mas porque?, não esbocei reação ou preocupação alguma, e fui até a mesa sugerida, e então abri o menu para olhar as opções. Na última página, uma montagem com duas reportagens sobre o restaurante, de época, e eu pude reparar que aquele senhor estava nas fotografias: ele era o dono!

Ele está bem velho, andando de muletas, devagar, falando devagar, aparentemente debilitado.

De entrada veio, também, 3 bolinhos de bacalhau, frescos, acabaram de sair da cozinha, da frigideira, ou seja lá onde eles fritam: estava leve, antecedia algumas mordidas pressionando eles na poça de azeite em meu prato de antepasto. Azeite suave demais, não sentia ele nas mordidas.

Pedi o bacalhau.

Ansiedade.

Veio o prato, pequeno até: bacalhau assado na grelha, com um dedo de azeite sobrando na forma, pimentão, cebola, meio ovo cozido (cade minha outra metade, chefia?) e as tais batatas aos murros (que nada mais são do que batatas pequenas, literalmente socadas, para ficarem meio amassadas, rachadas, levadas ao forno, porém eu acho que as minhas não eram 100% genuínas, pois não tinha manteiga ou algo assim para dar aquela umidade na batata.

Primeira garfada.
Pensamento: hum, bacalhau, mesmo ingrediente que o bolinho que eu como de vez em quando.

Segunda garfada.
Pensamento: é, o gosto é o mesmo de quando eu ia na feira e tinha peixes ao sol do meio-dia.

Eis que surge o dono do restaurante, de novo, para pedir que eu o desculpasse e explicar que ele havia sugerido a mudança pois, até onde entendi, o restaurante era frequentado mais por grupos, então seria melhor eu ir para uma mesa sozinho, no canto, que na hora de juntar as mesas seria melhor para eles trabalharem sem interromper.

Lojística.

Terceira garfada.
Pensamento: Vou prestar atenção na textura, na suavidade do gosto, em como ele fica na boca depois da garfada…

Quarta garfada.
Pensamento: Foda-se*, não aguento mais este peixe, pira-te

* Mesma conotação de “porra” usado no Brasil

Não comi inteiro, não comi fazendo careta, torcendo o nariz, nem nada que denunciasse a minha conclusão: não faz parte do meu gosto culinário. Sim, estou em Portugal, onde a pesca é uma atividade super importante, possui uma grande atribuição histórica por trás, valores culturais muito fortes, mas tudo isso não faz meu paladar gostar.

Portanto, da mesma maneira que eu experimentei comida japonesa umas quatro vezes e concluir que não me agrada o tipo de culinária, posso dizer a mesma coisa quanto ao bacalhau: não me agradou. Não significa que estava ruim, até por ser meu primeiro bacalhau eu não possuo conhecimentos de como é um bem feito ou um a desejar, tampouco tenho referências de outros que comi e são bons (ou ruins), mas asseguro que busquei restaurantes conhecidos, de guiar populares de restaurantes locais, e não fui apenas em uma padaria pedir um naco do peixe.

Creio que esses parâmetros sirvam para que o prato seja bom suficiente para você ter que se preocupar apenas com o fato de gostar ou não da culinária sem se preocupar com o modo de preparo.

Ainda tenho outras coisas para experimentar, como o Pastel de Belém, diretamente de Belém – pelo menos para doces eu sou um pouco mais fácil de me inclinar.

Ao escolher a sobremesa, eu torrei a paciência do garçom, pedindo a ele que me explicasse todas as sobremesas (umas 10, quase), para escolher o bolo de bolacha, que no Brasil é conhecido como pavê: bom, um pouco mais leve do que eu esperava, e um imenso lamentar que o deste restaurante (ou em Portugal, não sei) não era com chocolate.

Depois, um café.

Depois, caminhada de volta para o hotel, com esta bela pança com 1/2 bacalhau nadando em suco gástrico com batatas aos murros, bolo de bolacha e café. Tive vontade de comprar uma Coca-Cola Zero, que é mais simples que vinho (e aqui nem perguntam se quero limão, veja só), o que fez tudo dentro de mim começar a reagir de uma forma curiosamente incômoda, mas nada grave.

A caminhada foi muito boa, cheguei ao hotel em um trajeto de 18 graus e muitos arrotos – as ruas estavam bem vazias, eu poderia fazer o que eu quisesse (sem extremismos, por favor).

Amanhã, se nada surgir de surpresa, terei um período bacana para conhecer lugares lindos aqui em Lisboa e, finalmente, cumprir com a parte de lazer desta viagem que, a princípio, deveria ser apenas profissional.

24mar (Lisboa)

Aí sim! Finalmente um dia para chamar de “meu”, sem compromissos, sem correria, sem ameaças ou notícias patéticas: e ae, o que eu vou fazer? Como estava escrevendo no post anterior, eu pretendia ir ao Zoo de Lisboa, mas eu iria de manhã, para ter mais tempo de aproveitamento durante o dia…percebi que acordar cedo realmente é complicado (certo, podem me ovacionar em falar mal e sobre quanto imaturo eu sou), e eu só fui sair da cama depois do almoço.

Almoço, aliás, eu quase nem tive, pois não estava com vontade, pelo que lembro foi uma empada, algo patético assim, e eu lembrei de ir visitar o cais: câmera no bolso, e fui andando. Aliás, foi uma boa andada, desci uma avenida inteira, estava com sede, e o que eu avisto? Uma Starbucks. Sim, eu tomei o mesmo de sempre, só que em Lisboa. Sem contar que na noite anterior eu jantei Pizza Hut (era uma das únicas opções por perto que estava aberto no horário que eu resolvi sair para jantar – falha de planejamento).

Continuei andando, até ver que estava na…Rua Augusta! Eu, um grande odiador desta rua em São Paulo, estava nela aqui em Lisboa. Claro que, apesar do nome, são muito diferentes, exceto por uma coisa: me ofereceram maconha. Ao ar livre. À luz do dia. Em público. Duas vezes!

Então eu tenho cara de maconheiro, é isso? E ainda: vieram falar comigo em inglês. Certo, tenho cara de gringo, mas não chega a tanto, eu bem que podia ter fingido algum idioma e sair esbravejando, ou começar a falar sem eles entenderem, mas poderia parecer que estava negociando, iam me prender, me bater, enfim…tomei meu rumo à ignorância dos traficantes populares e continuei minha jornada.

Cheguei.

Cacetada, que lugar delicioso de passar o final de tarde: existem umas áreas que são escadas rasas que dão direto no mar, e fica o mar batendo nos degraus, as pessoas ficam sentadas, algumas descalças, olhando para aquele horizonte, olhando alguns navios passarem (literalmente), sentindo aquela brisa gelada que sopra do mar.

É uma delícia, é poético e eu preciso voltar lá.

Então sai do computador e vai pra lá.

Não, agora já anoiteceu, e se de dia me ofereceram maconha, vai saber o que irão me oferecer à noite. Agora vou me informar sobre os valores da janta no restaurante que estou de olho faz tempo, chamado Laurentina, e dependendo irei lá para, finalmente, ter uma refeição portuguesa.

23mar (Lisboa)

Um dos poucos dias em que eu não tinha compromissos profissionais para resolver, então eu planejei meu dia mentalmente para acordar cedo, ir ao Zoo de Lisboa, depois me perder de propósito, me misturar com as pessoas do dia a dia.

Mais um dia de correria profissional, com algumas reuniões e muito bate-papo para levantarmos ótimas ideias, eu estou tão perdido no tempo que achei que este tivesse sido o dia em que eu tive liberdade de lazer, mas não: este dia foi ontem, apenas. Novamente, na companhia do Julian Treasure, e seu fantástico trabalho, que muitas empresas deveriam contratar – lembram quando no começo as pessoas indagavam sobre a importância de uma apresentação, e atualmente não vivem sem? A mesma coisa com o trabalho dele.

Admito que por passar a maior parte do tempo sozinho, eu acabo me entediando facilmente, e por isso não tenho muitas novidades: quando o dia está cheio de trabalho, é igual a qualquer dia em São Paulo, onde chega o final do dia e você só pensa em ir para a cama, dormir, descansar.

No meu caso, antes de fazer isso eu ainda abro o notebook, vejo os meus e-mails, respondo, trabalho (além da agência, ainda tenho não um, nem dois, mas TRÊS eventos TEDx – sendo que um deles eu sou host), dou notícias para a família, falo com alguns amigos e, aí sim, vou dormir, e quando isso acontece já é tarde e eu me dano pela manhã do dia seguinte.

Mas o dia seguinte foi melhor, em questões de lazer.


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